texto de Leandro Luz
Três tipos de paisagens se interligam na narrativa de “O Último Azul” (2025), novo trabalho do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro, vencedor do Urso de Prata / Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim. A paisagem urbana de uma cidade nortista fictícia, porém cognoscível, castigada pela industrialização, divide o mesmo campo visual e sonoro que abre espaço ao verde denso e misterioso da Amazônia, que surge em determinado instante da trama. Conectando essas duas realidades está a paisagem mais labiríntica do filme: o rosto duro e implacável de Tereza, uma mulher de 77 anos que move mundos e fundos para realizar alguns de seus maiores sonhos antes de ser forçada a viver em um local indesejado.
Quem dá vida a Tereza é Denise Weinberg, atriz premiada no teatro, na televisão e no cinema, embora pouco conhecida pelo grande público. Weinberg recebe um presente de Mascaro: conceber uma personagem complexa e enigmática que carrega o filme inteiro. O roteiro de “O Último Azul” – assinado por Mascaro e Tibério Azul, com colaboração de Murilo Hauser e Heitor Lorega, a dupla de roteiristas por trás de “Ainda Estou Aqui” (2024) – confia que Tereza / Weinberg será capaz de ao mesmo tempo conduzir e dar vazão às discussões mais profundas do filme. Crença mais do que acertada, diga-se de passagem.

Em resumo, acompanhamos a história de Tereza, que é surpreendida pelo anúncio da redução de idade – de 80 para 75 anos – de uma política pública empreendida pelo governo que, em nome da recuperação econômica, leva os idosos para uma colônia habitacional compulsória. Com um ímpeto rebelde e aventureiro, também desesperado e nervoso, ela se atira ao desconhecido e sai em uma jornada de autodescoberta. As micro expressões engendradas pela atriz e a sua integridade diante dos desafios que a sua personagem precisa percorrer, por exemplo, são imprescindíveis para que as intenções narrativas e temáticas se abram para o espectador.
Ao contrário do que acontece em “Divino Amor” (2019), último longa-metragem de Gabriel Mascaro, em “O Último Azul” essa relação entre paisagens e atmosferas constitui o centro do interesse do cineasta, que se concentra muito mais na jornada da protagonista do que na tentativa de representação incessante de um universo distópico. Aqui, o filme se passa em um universo ligeiramente deslocado do nosso presente, mas evita marcadores visuais que evidenciam demais esse aspecto. Não se trata de uma ficção especulativa clássica, com gadgets tecnológicos e cenários futuristas elaborados. Pelo contrário, é quase como se estivéssemos vivendo mesmo o presente – pelo menos o de 2019 até 2022, assolados por um governo fascista e aniquilador de desejos.
Quando Tereza encontra Cadu, personagem interpretado por Rodrigo Santoro, ela passa a saber da existência do caracol da baba azul, espécie de divindade da natureza que concede poderes videntes a quem o encontra (quer dizer, não é você que encontra o caracol, é ele que encontra você). Apesar da sugestão mística, Mascaro não é seduzido pela ideia da representação gráfica desses eventos. Ao invés disso, o diretor empreende um gesto consciente contrário à necessidade de visualização de tudo. Algo que colabora com essa visão é o uso da música original composta pelo mexicano Memo Guerra. As melodias e texturas da trilha sonora percorrem caminhos inesperados e contribuem para a criação dessa atmosfera fabular que o filme tem, utilizando da sonoridade para dar conta de coisas que geralmente são conduzidas apenas pela imagem ou pelos diálogos.
O filme jamais embarca visualmente nas criaturas da mente que ele mesmo inventa, tanto é verdade que a viagem lisérgica de Cadu (e posteriormente de Tereza), similar a uma experiência com ayahuasca, nunca é ilustrada por meio do caminho mais clichê. A câmera se fixa no rosto das personagens – uma gota da baba azul do caracol é o suficiente – deixando a trip vivenciada por elas apenas na sugestão. Nada de imagens em caleidoscópio, fusões elaboradas ou demais trucagens típicas do trabalho de montagem. Nessa mesma linha, a representação visual da tal colônia também é evitada. Não há imagens do local, nem mesmo a sua descrição por meio de depoimentos de pessoas que o conheceram. Resta ao espectador apenas conjecturar.
Ainda que a jornada de Tereza seja inegavelmente interessante – destaque para a sequência em um local chamado Peixe Dourado -, fica a impressão de que alguns diálogos são mais duros e expositivos do que deveriam. O texto que sai das bocas de Weinberg e Santoro frequentemente soam deslocados. Os dois atores conseguem, com certa facilidade, lidar com as intenções de seus personagens por meio dos olhares, dos gestos e dos silêncios. Aos que assistem ao filme legendado, sem compreender o bom e velho português, o texto deve soar menos estranho. Alguns elementos da direção de arte caem no mesmo problema: as pichações nos muros com protestos da sociedade contra a colônia, a título de exemplo, apenas reiteram o que já sabemos.
Com menos neon, as cores parecem mais vivas. À exceção do azul que dá origem ao nome do filme, Mascaro investe menos em cores reluzentes e aposta mais na sobriedade, ainda que permaneça com as asas abertas em direção ao realismo fantástico. Deixando para trás comparações mais óbvias com “Boi Neon” (2015) e “Divino Amor”, no âmbito da própria filmografia de Mascaro, talvez seja mais produtivo recuperar um filme menos conhecido, embora mais memorável. “Ventos de Agosto” (2014), premiado no Festival de Locarno e no Festival de Brasília, para citar apenas dois grandes eventos nacionais e estrangeiros, carrega uma atmosfera e uma sensação angustiante que parecem ecoar em “O Último Azul”, além de procedimentos narrativos semelhantes. Em ambas as obras, Mascaro investe na duração dos planos e em fazer de sua mise-en-scène algo frequentemente simbólico, investigando a relação das personagens com a natureza à sua volta. Enfim, um retorno ao bom cinema de um cineasta sempre instigante.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.



Como sempre um texto muito bem escrito e maravilhoso que nos leva pra dentro do filme e dá muita vontade de assistir! Parabéns!